Da festa ao calor: grama 'cozida' por lona vira versão para falhas na Arena
O tapete da discórdia ganha um novo capítulo. A World Sports, empresa
responsável pelo gramado da Arena, dá a sua versão e explica por que o
palco da nova casa tricolor, alvo de críticas de Vanderlei Luxemburgo após a derrota para o Huachipato, na quinta, ainda não apresenta as melhores condições.
O diretor técnico da empresa Fabio Câmara reconhece atraso no processo,
que, inicialmente, previa conclusão total do gramado em fevereiro,
liberando o estádio inclusive para partidas do Gauchão, que estão sendo
disputadas no Olímpico. Há várias razões para a demora. Entre as
principais, segundo a World Sports, está o show de abertura (em 8 de
dezembro), com cerca de 800 figurantes pisando no gramado, o forte calor
do verão porto-alegrense, que freia o crescimento da grama de inverno e
a demora na importação das fibras sintéticas, que correspondem a 5% do
total do espaço verde.
- A lona cozinhou o gramado - detalha Câmara.
No entanto, o engenheiro também ressalva que a grama está melhorando e
discorda das críticas de Vanderlei Luxemburgo, que sugeriu um mês sem
jogos na Arena, e pediu para voltar a disputar jogos com o time
principal no Olímpico, inclusive na Libertadores:
- Discordo da colocação dele, o campo não foi o culpado pela derrota. O
campo não está 100%, assino embaixo. Precisa de mais tempo? Precisa.
Mas o campo já melhorou 80%. Em 15 ou 20 dias, no comecinho de março,
poderá receber jogos sem problema nenhum.
A evolução do gramado está dentro do previsto? Ou houve algum contratempo?
Fabio Câmara: A
nossa programação era para o Gauchão, no começo de fevereiro, o gramado
estar 100% maduro. Quando nós firmamos o contrato com a OAS, estava
previsto, antes, para 8 de dezembro, um jogo amistoso a fim de abrir o
estádio.
Não contávamos com o show de inauguração. Para se ter uma
ideia, eram 800 crianças pisoteando a lona que encobria o campo. Claro,
não faltou boa vontade, fizemos reuniões antes para diminuir os efeitos.
Mas tinha que ter o show.
E a lona cozinhou o gramado. Antes, houve os
ensaios. A equipe do Blue Man Group andou com seus carrinhos várias
vezes pelo gramado. No fim, após os eventos, tivemos que voltar à estaca
zero no final de dezembro. Semeamos novamente o campo inteiro. Começou
tudo de novo. Demos um passo atrás.
Mais algum fator?
Sim, houve o excesso de calor no verão de Porto Alegre, que atrapalha a
grama de inverno. As fibras sintéticas (5% do gramado é artificial e
costurado à parte natural para evitar a soltura de tufos) atrasaram.
Elas são importadas da Bélgica e tivemos problemas em relação a isso. A
cobertura, que protege boa parte do campo do sol, também contribui para a
demora do amadurecimento. Se o gramado estivesse descoberto, já estaria
mais consolidado.
Esse gramado de inverno é o ideal, vai vingar no Brasil?
É uma proposta pioneira no Brasil. E eu continuo apostando nela, sim.
Sobretudo na região Sul, em Porto Alegre, Curitiba (Arena da Baixada)...
O ideal, sem dúvida, era ter começado o plantio num período de
temperaturas mais amenas (a semeadura ocorreu em 19 de outubro), quem
sabe em maio passado. No próximo inverno, este campo vai estar
espetacular.
Ainda antes do inverno, estará 100%?
Sim, o gramado evoluiu muito bem. No jogo passado, contra a LDU (dia 30
de janeiro), o campo estava muito pior. Melhorou 80%. Dá para ver um
gramado mais saudável, com cara de campo. Faltam uns 20%. Em 15 ou 20
dias, no comecinho de março, poderá haver jogos sem problema nenhum. E
pode treinar enquanto isso, uma vez por semana, por exemplo. Tem plena
condições de jogo.
Então, você não concorda com Luxa, de que precisa fazer um intervalo na Arena?
Discordo da colocação dele, o campo não foi o culpado pela derrota. O
campo não está 100%, assino embaixo. Precisa de mais tempo? Precisa. Mas
o campo já melhorou, a comissão técnica o elogiou nos treinos da
semana.
Qual o próximo passo?
Um estágio já avançamos, certamento: a grama não solta. Mas ainda não
formou a massa foliar. O nosso trabalho agora é uniformizar, deixar tudo
verde, eliminar os espaços com areia, o que já diminuiu muito desde o
último jogo. As folhas ainda estão se formando. Nosso objetivo é deixar
aquelas áreas que voce viu abertas fechadas. É tudo muito novo ainda, é
um gramado jovem. Usamos para recuperação e fortalecimento, além do
corte, bioestimulantes e fertilizantes especiais. Na lateral oposta ao
banco de reservas, a evolução é nítida, é o melhor espaço. Já na lateral
em frente ao reservado encontramos mais problemas, justamente porque o
espaço é mais desgastado. Há os técnicos, as substituições, a saída para
os vestiários...
Sim, o gramado evoluiu muito bem. No jogo passado, contra a LDU (dia 30
de janeiro), o campo estava
muito pior. Melhorou 80%. Dá para ver um
gramado mais saudável, com cara de campo. Faltam uns 20%.
Em 15 ou 20
dias, no comecinho de março, poderá haver jogos sem problema nenhum. E
pode treinar enquanto isso, uma vez por semana, por exemplo. Tem plena
condições de jogo.
Choveu muito em Porto Alegre na quinta. A drenagem, pelo visto, suportou. Ela está 100% pronta?
A drenagem (sistema a vácuo, inédito no Brasil) é sensacional, poderia chover o triplo que choveu. Está pronta.
Em Wembley, se usa tecnologia semelhante à da Arena. Mas, em
estádios como o Santiago Bernabeu e o Amsterdam Arena, são utilizados
rolos de grama. Qual delas é a mais indicada?
Prefiro a tecnologia da Arena, a da semeadura. O rolo exige mais
manutenção a longo prazo, fica sempre tirando e colocando novos. É
sempre uma obra nova. É bom deixar claro que a grama é a mesma, o que
muda é a tecnologia. Com o rolo, não há fibras costuradas. Na Europa, é
mais fácil usar rolos pela facilidade em encontrar a mão de obra, o
produto, a logística... Para se ter uma ideia, o Amsterdam Arena tem
três campos prontos a 50 quilômetros da cidade. Se precisar trocar,
basta buscar. O que não quer dizer que não vamos renovar a grama na
Arena. No período de fim de ano, quando não há jogos, haverá uma
ressemeadura.
As novas arenas do Brasil usarão este tipo de grama de inverno?
No Brasil, em tese, dado o clima tropical e subtropical, a grama é de
clima quente, sendo que, no Sul e Sudeste, nos meses de outono e
inverno, se faz a chamada "sobre semeadura" ou "overseeding" com gramas
de clima frio, formando um consórcio de gramas. Essa prática é realizada
comumente nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Aqui, Olímpico,
Beira-Rio, Arena da Baixada, Pacaembu, Morumbi, Couto Pereira... No caso
da Arena do Grêmio, é o primeiro gramado formado apenas por grama de
inverno na sua base, com sistema de insuflamento de ar no solo para
resfriamento nos meses mais quentes - possível pela condição climática
de Porto Alegre. Os estádios do Norte e Nordeste só terão gramas de
clima quente. Já a Arena da Baixada, a Arena Corinthians e Brasília
possuem na especificação da Fifa apenas grama de inverno, como no
Grêmio. Mineirão, Maracanã e Beira-Rio terão grama de clima quente, mas
com recomendação de semeadura de grama de inverno (overseeding) para a
Copa de 2014.